E Ela foi embora sem dar tchau
Entrava na sua apertada alcova, sob um fino e elegante chuvisco outonal quando, de forma paulatina e sedutora, o encapuzado atroz sem rosto fechava as escarlates cortinas do derradeiro dia, e o gorjear dos pássaros se transfigurava em estrelas mudas, e todas as cores do mundo viravam uma só.Estava cansado - encarcerado em uma rotina extenuante e previsível, angustiado por uma insensatez laranja inexplicável. Deitou-se na cama ante os remotos e incessantes uivos dos lobos da estepe, e tão logo adormeceu que sequer trocou os trajes plebeus ou tirou as botinas sujas, tendo ainda no rosto o disfarce dos sorrisos dissimulados que usara no decorrente dia, enganando as pessoas e a si mesmo.
E lá fora, na penumbra hermética e nas brumas gélidas, no decadente trono sentados estavam, envoltos por borboletas amarelas e tendo às suas patas heliotrópios pisados e apodrecidos. Os cabelos lhe caíam no rosto, tinham gostos requintados e coração austero. Olhavam com suas repugnantes órbitas para o cândido adormecido que dormia, que dormia e que dormia entre cobertas de angústia e que se remexia, revirava e gemia na vã tentativa de esquecer tudo. Olhavam às gargalhadas e escarravam lucidez. Eles, os que olham, não têm nome e nunca terão, pois para sempre e desde o princípio estavam marcados pelo estigma dos seres indignos da vida.
Fez-se dia e, servindo de preâmbulo para o irremediável porvir, choveu sangue de um céu dilacerado. O desafortunado ser acordou e, ao divisar seu horizonte inteiramente tingido de vermelho, caiu em prantos abundantes, vendo que finalmente chegara o tão aguardado dia.
Vagarosamente pegou a carabina do fundo do armário e se dirigiu para fora daquilo que por toda a vida chamou de lar, obstinado a pôr fim ao seu cruel sofrimento. A relva estava vermelha, o céu estava negro, e ele cambaleava diante das lembranças de tantos dias e noites. O vento gélido do norte ruborizava a sua tez. Direcionou o revólver para o seu peito e, numa onda de profundo ressentimento e mágoas, apertou o gatilho sem exitação. A bala atravessou seu coração num grito surdo, rasgando as entranhas de um ser arrependido. Ele se espatifou no chão, e agora não passava de uma carcaça sem vida, o remanescente de uma existência com mais altos do que baixos. Recomeçava o chuvisqueiro rubro quando, pouco a pouco, iam baixando os urubus. E Ela, sorridente e terna, camuflada por entre os arbustos encharcados, foi embora de mãos dadas com os indignos sem-nome, sem dar tchau.
E imediatamente após a fatalidade o esquecimento tratou de tecer a sua própria mortalha, e a importância cuidou de organizar o seu próprio funeral, de modo que nos dias de hoje não é possível saber a identidade do suicida e nem o motivo de tão horrendo ato.
Atenção: esse texto contém incontáveis simbolismos e metáforas que apenas meia dezena de pessoas irão compreender, portanto não tente achar significados em partes não compreendidas.


8 Comments:
Primeiro a comentar!
He² surpreende + uma vez com seu jeito emo de ser xDDDd
UAHAUHAUhauHAUAHUAaA
O texto tem palavras ateh q bem complexas para um blog,entendi algumas metaforas e simbologias do nosso amigo aki,e realmente, do fundo do meu coração, sinceramente, com toda a honestidade do mundo, naum tenho nada a declarar!
abraço
Texto deveras fantástico.
O melhor até agora.
Você é preguiçoso.Isso sim.
Poderia ser feliz, se tentasse.
Biológico.
...
texto muito bem escrito, muito bom
mas, vc tá muito emo, mano...
quer conversar?
Hélio, você leu Os Sofrimentos do Jovem Wether há pouco tempo?
Me explica uma das metáforas do texto? =P
E vê se pára de ser emo... como disse alguem aí, vc não é feliz por preguiça
O Terceiro anômimo tem razão.
Levanta essa bunda engordurada dessa possa de lágrimas vazias e tenta ser feliz.
Nós, o pistoleiro, não devíamos...
V.
wow, melhor texto até agora.
Hélio, escreve um livro!
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