Heliópolis

Uma distração no seu fim de tarde, um remédio para a sua diária falta do que fazer, uma exceção dentre todos os outros blogs - por um lado, muitíssimo pouco criativo, mas por outro, ahá!, cheio de uma humildade contagiante e uma ironia sem igual (au, au).

3.12.06

E Ela foi embora sem dar tchau

Entrava na sua apertada alcova, sob um fino e elegante chuvisco outonal quando, de forma paulatina e sedutora, o encapuzado atroz sem rosto fechava as escarlates cortinas do derradeiro dia, e o gorjear dos pássaros se transfigurava em estrelas mudas, e todas as cores do mundo viravam uma só.

Estava cansado - encarcerado em uma rotina extenuante e previsível, angustiado por uma insensatez laranja inexplicável. Deitou-se na cama ante os remotos e incessantes uivos dos lobos da estepe, e tão logo adormeceu que sequer trocou os trajes plebeus ou tirou as botinas sujas, tendo ainda no rosto o disfarce dos sorrisos dissimulados que usara no decorrente dia, enganando as pessoas e a si mesmo.

E lá fora, na penumbra hermética e nas brumas gélidas, no decadente trono sentados estavam, envoltos por borboletas amarelas e tendo às suas patas heliotrópios pisados e apodrecidos. Os cabelos lhe caíam no rosto, tinham gostos requintados e coração austero. Olhavam com suas repugnantes órbitas para o cândido adormecido que dormia, que dormia e que dormia entre cobertas de angústia e que se remexia, revirava e gemia na vã tentativa de esquecer tudo. Olhavam às gargalhadas e escarravam lucidez. Eles, os que olham, não têm nome e nunca terão, pois para sempre e desde o princípio estavam marcados pelo estigma dos seres indignos da vida.

Fez-se dia e, servindo de preâmbulo para o irremediável porvir, choveu sangue de um céu dilacerado. O desafortunado ser acordou e, ao divisar seu horizonte inteiramente tingido de vermelho, caiu em prantos abundantes, vendo que finalmente chegara o tão aguardado dia.
Vagarosamente pegou a carabina do fundo do armário e se dirigiu para fora daquilo que por toda a vida chamou de lar, obstinado a pôr fim ao seu cruel sofrimento. A relva estava vermelha, o céu estava negro, e ele cambaleava diante das lembranças de tantos dias e noites. O vento gélido do norte ruborizava a sua tez. Direcionou o revólver para o seu peito e, numa onda de profundo ressentimento e mágoas, apertou o gatilho sem exitação. A bala atravessou seu coração num grito surdo, rasgando as entranhas de um ser arrependido. Ele se espatifou no chão, e agora não passava de uma carcaça sem vida, o remanescente de uma existência com mais altos do que baixos. Recomeçava o chuvisqueiro rubro quando, pouco a pouco, iam baixando os urubus. E Ela, sorridente e terna, camuflada por entre os arbustos encharcados, foi embora de mãos dadas com os indignos sem-nome, sem dar tchau.

E imediatamente após a fatalidade o esquecimento tratou de tecer a sua própria mortalha, e a importância cuidou de organizar o seu próprio funeral, de modo que nos dias de hoje não é possível saber a identidade do suicida e nem o motivo de tão horrendo ato.

Atenção: esse texto contém incontáveis simbolismos e metáforas que apenas meia dezena de pessoas irão compreender, portanto não tente achar significados em partes não compreendidas.

8 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Primeiro a comentar!
He² surpreende + uma vez com seu jeito emo de ser xDDDd
UAHAUHAUhauHAUAHUAaA
O texto tem palavras ateh q bem complexas para um blog,entendi algumas metaforas e simbologias do nosso amigo aki,e realmente, do fundo do meu coração, sinceramente, com toda a honestidade do mundo, naum tenho nada a declarar!

abraço

9:30 PM  
Anonymous Anônimo said...

Texto deveras fantástico.
O melhor até agora.

12:52 AM  
Anonymous Anônimo said...

Você é preguiçoso.Isso sim.
Poderia ser feliz, se tentasse.

Biológico.

11:10 PM  
Anonymous Anônimo said...

...

texto muito bem escrito, muito bom
mas, vc tá muito emo, mano...

10:31 AM  
Anonymous Anônimo said...

quer conversar?

10:32 AM  
Anonymous Anônimo said...

Hélio, você leu Os Sofrimentos do Jovem Wether há pouco tempo?

Me explica uma das metáforas do texto? =P
E vê se pára de ser emo... como disse alguem aí, vc não é feliz por preguiça

5:10 PM  
Anonymous Anônimo said...

O Terceiro anômimo tem razão.
Levanta essa bunda engordurada dessa possa de lágrimas vazias e tenta ser feliz.

Nós, o pistoleiro, não devíamos...


V.

11:51 PM  
Anonymous Anônimo said...

wow, melhor texto até agora.
Hélio, escreve um livro!

11:44 AM  

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