caninos brancos e um aperto de mãos
Transanteontem barraram-me na rua - em algum terminal de ônibus qualquer, leia-se. Coisa rara de acontecer, coisa difícil de se aturar. Mas nesta ocasião foi diferente: distinto era o 'locutor', favoráveis eram as circunstâncias. Mesclando teorias de conspiração a dignos relatos de uma vida experiente, o psicótico-barbado acabou conquistando minha simpatia e impressionando-me até o âmago de minhas tripas. A julgar pelo seu estranho devaneio de enxergar guardas obscuros de Atlântida em simples fiscais de amarelo, ele deveria ter há pouco escapado de algum sanatório das redondezas.
Ivan era seu nome. Fitava-me com olhos frenéticos e assassinos e tinha um tique involuntário que repuxava seu lábio superior para a esquerda. Uma alma perturbada com um passado abundante e cultura singular. Não estava bêbado ao afirmar ser um sargento reformado do exército; não, não estava. E sua voz firme não deixou dúvidas quando disse que sua irmã morava nos Estados Unidos e falava sete línguas diferentes.
Após longos minutos de conversa, depois de me aconselhar sobre o maldito alistamento militar, ele pediu para ver a palma da minha mão. Não sabia o motivo, mas tampouco hesitei. Sob olhares atentos de um atarracado executivo e uma indistinta dona-de-casa, ele proclamou "médico!" em alto e bom som, soltando em seguida a mão que sorrateiramente voltou ao seu hábitat natural - o largo bolso.
Esperava ter que dar alguns trocados por tão preciosa sessão de profecias. Mas não pediu um centavo sequer, não deu um único cartão ou panfleto, afastando-se após um rápido e tímido aperto de mãos em seus trajes bem cuidados.
Abraço, caro Ivan, bedel da FMU. Você escreveu momentos e minutos interessantes no livro da minha vida. Espero e não espero te encontrar mais: sua vida me causa grande interesse, seu olhar cortante e seus caninos brancos provocam-me insondável medo.


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