lá embaixo
Há dias em que tenho sorte, e a comitiva de vultos sem rostos disfarça-se sob a forma de um triste e silencioso funeral de um ente querido coletivo: todos quietos, imóveis, aflitos, fitando-se uns aos outros e olhando desoladamente para o teto de flancos translúcidos. Mas em compensação há dias em que o bom-senso desaparece, e jovens com vozes estridentes tentam concentrar toda a atenção para si, gesticulando e gargalhando exaltadamente. Fechar os olhos, estalar os dedos e bufar de indignação não os fazem dar-se conta do incômodo que causam.
Mas hoje foi um dia de sorte. Tudo estava calmo e confortável. Pessoas civilizadas ocupando um espaço comum davam uma lição de educação aos baderneiros, fúteis, emos e idiotas que se acham.
À minha esquerda, um rapaz de pólo cinza, cabelo escasso e mochila no colo lia Recordação da Casa dos Mortos numa edição recém-lançada pela editora Martin Claret. Após descer na sua estação, sentou em seu lugar uma jovem de traços infantis e franja precisa, que tinha braços finos dourados pelo sol, brincos exóticos que balançavam graciosamente junto com o movimento do vagão e um rabo-de-cavalo caprichosamente bem feito. Mantinha as pernas cruzadas, seus óculos eram de armação simples. Calçava tênis esportivos brancos e vestia um despretensioso blusão azul-marinho claro com uma cinta bege. Segurava um livro com as duas mãos, e pude perceber de longe que lia As Travessuras da Menina Má. Atendia o telefone com a mão direita e demonstrava impaciência balançando o pé esquerdo. Tinha cara de Mariana, e desceu em Santana.
À minha frente, uma garota com pequenas e formosas cicatrizes (de uma longínqua catapora contraída na infância, talvez) na têmpora direita se dispunha de modo oblíquo. Aparentava vinte e cinco anos e seis meses ou mais e sustinha uma grande bolsa nas costas, cobrindo as ancas. Seus cabelos parcialmente loiros não consentiam que eu visse, ao menos por um instante, seus olhos castanhos-escuro. Vestia por baixo de um curto terno feminino uma camisa verde-maçã, conservava no braço direito uma pulseira módica e calçava sapatos femininos sem salto. Apoiava o peso do corpo na perna esquerda e tinha mãos de quem trabalha muito e dorme pouco. Permaneceu durante seis estações no vagão e foi embora para sempre sem olhar para trás.
Mais ao fundo, um velho executivo de gravata escarlate e sapatos brilhantes encarava um careca com uma camisa do Palmeiras à sua frente. Um estudante universitário cedia seu lugar para uma grávida com colar prateado exuberante. Um casal de idosos repousava, serenamente, em um banco a eles reservado, cada um apoiando-se em suas respectivas bengalas. Um indistinto sujeito em trajes comuns, carregando uma mochila cheia de mudas de roupa, olhava para o seu reflexo no vidro.
E, entretido nessas observações de tipos tão distintos, espantei-me por ter chegado ao meu destino tão rapidamente.


6 Comments:
marasmo?
quem dera..
bom, apenas um comentario, nao me lembro da garota loira ser como voce a descreveu
abraços hêlio
como se disse no ducumentário da titia greyce,
"se você saber como, dá pra se divertir muito no metrô".
Este comentário foi removido pelo autor.
A meio passo da devassidão, hein, primo!
feliz ou infelizmente aqui não tem metrô.
auhauhaha flw
Edu
ahhh acabou? adorei o texto, é bom pegar um metro ou mesmo o ônibus e nesse dia estar aberto a observar as pessoas!!
Gostei do post. bjo bjo!
"Atendia o telefone com a mão direita e demonstrava impaciência balançando o pé esquerdo. Tinha cara de Mariana, e desceu em Santana."
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