o Estrangeiro
O telefone toca, as portas batem, os pássaros voam para longe. E num pandemônio de fenômenos inexplicáveis entra em cena, surgindo junto com a aurora, ele, o Estrangeiro.
Tinha gostos e impressões irremediavelmente diferentes de todos que o cercavam. Seu jeito não era tolerado, poderia ser repreendido ao menor e precipitado movimento. Contorcia-se violentamente com as constantes injúrias a tão-somente ele dirigidas, advindas dos cortantes e frios olhares que penetravam na carne e dissecavam os ossos. No país onde quieto significava chato, ninguém sabia ou tinha interesse em saber o seu nome; como um reles e irrelevante intruso era conhecido.
O Estrangeiro não falava, e tampouco sabia a libras. O Estrangeiro não tinha passaporte para o clã da futilidade expressa, e tampouco o queria. Ele agiu por instinto, sem pensar, ao escolher aquele lugar para desembarcar.
Desconexas imagens se revezavam na mente do Estrangeiro, numa síntese conformada de perdas e saudades, quando, à espera de condução para casa, ocasionalmente cismava - um aceno de mão num dia chuvoso e triste; três pessoas brincando no escuro total; risadas em períodos de iminente perigo islâmico; olhos marejados num corredor atarracado e mal-iluminado; letras vermelhas num pedaço de papel; um Frederick Forsyth nas mãos de uma transeunte de trejeitos tímidos; uma partida de futebol; a relva molhada a encharcar-lhe os calçados.
E, por ver futuro não muito promissor, ele desejou, fraco como era, mudar de país. Por que ele escolheu o inferno, quando ao seu horizonte fulgurava promessas de grandes leituras e perspectivas, de ensolarados porvires em companhia dos anjos?


3 Comments:
poizé, agora aguenta o ano inteiro.
tsc tsc,
apagou meu outro post
cade a liberdade de expressão?
tsc tsc
soberba é um dos pequados quapitais....(15%?)
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