Saíram cedo de casa, a fim de evitarem filas e maiores confusões. Papai votou no Lula. Mamãe, no Geraldo. Confesso que mantive-me apático e taciturno na maioria das discussões sobre política que aconteceram aqui em casa, porque, afinal de contas, elas nunca terminam com um pacto amigável, nunca chegam a lugar algum. Ainda bem que eles não levam essas conversas tão a sério quanto deveriam, visto que, do contrário, eu já seria um garoto órfão.
Se tenho apreço por algum candidato? Faça-me rir, estimado leitor, faça-me rir. Mantenho a firme resolução de adiar ao máximo possível a saída do meu título de eleitor dos confins nefastos do prédio atarracado do cartório da Casa Verde, e, para falar a verdade, tenho um grande repúdio por ambos os candidatos, cada qual com seus próprios escândalos e mentiras, promessas e embustes.
De um lado, um metalúrgico “do povo”, que diz não ter conhecimento de nada que aconteceu e acontece ao seu redor, no seu ambiente de trabalho e na sua casa; do outro, um calvo sempre bem vestido em paletós pretos e azuis que, para falar a verdade, não inspira o mínimo de confiança. O primeiro promete aumentar o salário mínimo; o segundo promete benefícios aos proprietários de pequenas e médias empresas. Blá-blá; blá-blá-blá. Que vença o preferido do povo! Estamos, afinal, numa democracia. Eu, sinceramente, não me importo. Muita pouca coisa mudou nos últimos quatro anos no meu dia-a-dia. E tenho a obstinada convicção de que nada mudará nos próximos anos também.
É triste, mas esses cento e vinte e tantos milhões de votos de negros, brancos, amarelos e vermelhos decidirão apenas uma coisa, de fato: o próximo alvo de Diogo Mainardi e Arnaldo Jabor.
Eu tenho pleno conhecimento da minha limitação no assunto. Xinguem-me à vontade, petistas e tucanos! Marquem meu nome nas suas respectivas listas negras e assassinem a minha opinião e o meu corpo. A generalização na política é inevitável, vocês hão de concordar. Peroba neles!
Ponto.