Heliópolis

Uma distração no seu fim de tarde, um remédio para a sua diária falta do que fazer, uma exceção dentre todos os outros blogs - por um lado, muitíssimo pouco criativo, mas por outro, ahá!, cheio de uma humildade contagiante e uma ironia sem igual (au, au).

23.2.07

Eles!

Um sebo. Há tempo? Entro. Vasculho sem ajuda pelas prateleiras empoeiradas, um singelo transeunte curioso entre avenidas de moradias verticais. Por todos os lados do paraíso-sem-anjos tentações pecaminosas apresentam-se em forma de livros velhos, grandes, novos e bonitos - livros com dedicatórias, com biografias próprias. Nesse refúgio da realidade barulhenta e poluída, por entre infindáveis laudas impressas, caminho vagarosamente, deparando-me ocasionalmente com livros caros e desejados, conhecidos e já lidos. Atchim!

Ali Steinbeck, aqui, nossa, Graham Greene, acolá Dumas filho e ali em cima Turguéniev. Dois Lolita, três Amor de Perdição, quatro Suave é a Noite, cinco Werther. Inúmeros Grishman, infinitos Sheldon, quantos Roth! Nenhum Mrs. Dalloway, Beckett em falta, nunca vi nenhum McEwan! Tem Hemingway? Aquele do Dráuzio Varella! Hilda Hilst? É! ...algum da Lispector, por favor.

No caixa, peço desconto. Se for o moreno melancólico e misantropo, um, dois, três reais a mais na carteira. Se não, tudo bem, o céu ainda está lindamente sem nuvens hoje. Efetuada a aquisição, sigo pela esburacada rua - a mochila mais pesada, as mãos nos bolsos e uma grande mistura de alívio e felicidade - em direção à minha casa.

...E na estante caprichosamente organizada eles ficam, para serem contemplados, manuseados, relembrados. Numa paciência inverossímil, por afeto e atenção esperam.

Bom, espero conseguir ler todos os livros que estão na minha lista de espera ainda esse ano.
aaah.

14.2.07

lá embaixo

Há dias em que tenho sorte, e a comitiva de vultos sem rostos disfarça-se sob a forma de um triste e silencioso funeral de um ente querido coletivo: todos quietos, imóveis, aflitos, fitando-se uns aos outros e olhando desoladamente para o teto de flancos translúcidos. Mas em compensação há dias em que o bom-senso desaparece, e jovens com vozes estridentes tentam concentrar toda a atenção para si, gesticulando e gargalhando exaltadamente. Fechar os olhos, estalar os dedos e bufar de indignação não os fazem dar-se conta do incômodo que causam.

Mas hoje foi um dia de sorte. Tudo estava calmo e confortável. Pessoas civilizadas ocupando um espaço comum davam uma lição de educação aos baderneiros, fúteis, emos e idiotas que se acham.

À minha esquerda, um rapaz de pólo cinza, cabelo escasso e mochila no colo lia Recordação da Casa dos Mortos numa edição recém-lançada pela editora Martin Claret. Após descer na sua estação, sentou em seu lugar uma jovem de traços infantis e franja precisa, que tinha braços finos dourados pelo sol, brincos exóticos que balançavam graciosamente junto com o movimento do vagão e um rabo-de-cavalo caprichosamente bem feito. Mantinha as pernas cruzadas, seus óculos eram de armação simples. Calçava tênis esportivos brancos e vestia um despretensioso blusão azul-marinho claro com uma cinta bege. Segurava um livro com as duas mãos, e pude perceber de longe que lia As Travessuras da Menina Má. Atendia o telefone com a mão direita e demonstrava impaciência balançando o pé esquerdo. Tinha cara de Mariana, e desceu em Santana.

À minha frente, uma garota com pequenas e formosas cicatrizes (de uma longínqua catapora contraída na infância, talvez) na têmpora direita se dispunha de modo oblíquo. Aparentava vinte e cinco anos e seis meses ou mais e sustinha uma grande bolsa nas costas, cobrindo as ancas. Seus cabelos parcialmente loiros não consentiam que eu visse, ao menos por um instante, seus olhos castanhos-escuro. Vestia por baixo de um curto terno feminino uma camisa verde-maçã, conservava no braço direito uma pulseira módica e calçava sapatos femininos sem salto. Apoiava o peso do corpo na perna esquerda e tinha mãos de quem trabalha muito e dorme pouco. Permaneceu durante seis estações no vagão e foi embora para sempre sem olhar para trás.

Mais ao fundo, um velho executivo de gravata escarlate e sapatos brilhantes encarava um careca com uma camisa do Palmeiras à sua frente. Um estudante universitário cedia seu lugar para uma grávida com colar prateado exuberante. Um casal de idosos repousava, serenamente, em um banco a eles reservado, cada um apoiando-se em suas respectivas bengalas. Um indistinto sujeito em trajes comuns, carregando uma mochila cheia de mudas de roupa, olhava para o seu reflexo no vidro.

E, entretido nessas observações de tipos tão distintos, espantei-me por ter chegado ao meu destino tão rapidamente.

13.2.07

o Estrangeiro

O telefone toca, as portas batem, os pássaros voam para longe. E num pandemônio de fenômenos inexplicáveis entra em cena, surgindo junto com a aurora, ele, o Estrangeiro.

Tinha gostos e impressões irremediavelmente diferentes de todos que o cercavam. Seu jeito não era tolerado, poderia ser repreendido ao menor e precipitado movimento. Contorcia-se violentamente com as constantes injúrias a tão-somente ele dirigidas, advindas dos cortantes e frios olhares que penetravam na carne e dissecavam os ossos. No país onde quieto significava chato, ninguém sabia ou tinha interesse em saber o seu nome; como um reles e irrelevante intruso era conhecido.

O Estrangeiro não falava, e tampouco sabia a libras. O Estrangeiro não tinha passaporte para o clã da futilidade expressa, e tampouco o queria. Ele agiu por instinto, sem pensar, ao escolher aquele lugar para desembarcar.

Desconexas imagens se revezavam na mente do Estrangeiro, numa síntese conformada de perdas e saudades, quando, à espera de condução para casa, ocasionalmente cismava - um aceno de mão num dia chuvoso e triste; três pessoas brincando no escuro total; risadas em períodos de iminente perigo islâmico; olhos marejados num corredor atarracado e mal-iluminado; letras vermelhas num pedaço de papel; um Frederick Forsyth nas mãos de uma transeunte de trejeitos tímidos; uma partida de futebol; a relva molhada a encharcar-lhe os calçados.

E, por ver futuro não muito promissor, ele desejou, fraco como era, mudar de país. Por que ele escolheu o inferno, quando ao seu horizonte fulgurava promessas de grandes leituras e perspectivas, de ensolarados porvires em companhia dos anjos?

3.2.07

cisma

[essa é uma boa hora pra conversar com ela. eu ainda não abri a boca! ela não é adivinha, se eu não falar ela não... mas, droga, ela vai pro sentido contrário. ela não descia sempre na W.? e justo quando eu ansiava pela sua companhia, faz tanto tempo que não a vejo! será que seria muito idiota me prontificar a acompanhá-la até o seu ponto final? será que ela ficará bem, chegará sã e salva ao lar? e será que essa bolsa não está muito pesada, e esse vento muito propenso a refriá-la? e... que tal perguntar se ela gostou dos filmes, e me justificar por não ter comido aquele pão que aparentava estar ótimo!? e tem o livro! como eu gostaria de dizer que o adorei, e que esperava que ela gostasse também! que eu, na ânsia de entregá-lo em perfeitas condições, folheei página por página à procura de alguma lauda fugidia, limpando, no fim, a capa e a contra-capa já de olhos marejados.. como é difícil falar, e falar que tive saudades, que gostaria de ter experimentado um pedaço daquele pão celestial, que gostei mais do segundo filme, que achei a parte final do livro maravilhosa, que sonhei com ela anteontem, ... e que me jogaria nos trilhos lá embaixo se ela pedisse, que rastejaria atrás de seus passos se ela consentisse, que daria a vida pela sua sombra, que sempre fico contente só de fitar seus olhos, que...]


- Tchau. Obrigada pelo livro.

- Tchau. De nada.