Heliópolis

Uma distração no seu fim de tarde, um remédio para a sua diária falta do que fazer, uma exceção dentre todos os outros blogs - por um lado, muitíssimo pouco criativo, mas por outro, ahá!, cheio de uma humildade contagiante e uma ironia sem igual (au, au).

10.4.07

triste fim?

Textos novos provavelmente nunca mais. O senhor dono do heliópolis está perdendo totalmente a sanidade mental e é incapaz de escrever um texto impessoal e bem-acabado. Apreciem os do passado.


Derradeiras reverências à Cecília Meirelles, à tranqüila e perfeita estação Jardim São Paulo do Metrô, à editora L&PM e às pessoas que dão tchau e entendem que isso é sinônimo de civilidade. Tchaaau, vida. Adeus, visitantes. Até nunca mais. Dias melhores nunca virão.


atualização: é, eu acabei voltando.

1.4.07

caninos brancos e um aperto de mãos

Transanteontem barraram-me na rua - em algum terminal de ônibus qualquer, leia-se. Coisa rara de acontecer, coisa difícil de se aturar. Mas nesta ocasião foi diferente: distinto era o 'locutor', favoráveis eram as circunstâncias. Mesclando teorias de conspiração a dignos relatos de uma vida experiente, o psicótico-barbado acabou conquistando minha simpatia e impressionando-me até o âmago de minhas tripas. A julgar pelo seu estranho devaneio de enxergar guardas obscuros de Atlântida em simples fiscais de amarelo, ele deveria ter há pouco escapado de algum sanatório das redondezas.

Ivan era seu nome. Fitava-me com olhos frenéticos e assassinos e tinha um tique involuntário que repuxava seu lábio superior para a esquerda. Uma alma perturbada com um passado abundante e cultura singular. Não estava bêbado ao afirmar ser um sargento reformado do exército; não, não estava. E sua voz firme não deixou dúvidas quando disse que sua irmã morava nos Estados Unidos e falava sete línguas diferentes.

Após longos minutos de conversa, depois de me aconselhar sobre o maldito alistamento militar, ele pediu para ver a palma da minha mão. Não sabia o motivo, mas tampouco hesitei. Sob olhares atentos de um atarracado executivo e uma indistinta dona-de-casa, ele proclamou "médico!" em alto e bom som, soltando em seguida a mão que sorrateiramente voltou ao seu hábitat natural - o largo bolso.

Esperava ter que dar alguns trocados por tão preciosa sessão de profecias. Mas não pediu um centavo sequer, não deu um único cartão ou panfleto, afastando-se após um rápido e tímido aperto de mãos em seus trajes bem cuidados.

Abraço, caro Ivan, bedel da FMU. Você escreveu momentos e minutos interessantes no livro da minha vida. Espero e não espero te encontrar mais: sua vida me causa grande interesse, seu olhar cortante e seus caninos brancos provocam-me insondável medo.