Os tempos de imensurável revolta são outros, esvaíram-se junto com outras revoltas igualmente descartáveis e inúteis. Mas a pequena e incômoda insegurança em relação ao meu nome ainda encalça as minhas pegadas e me atormenta a alma, causando-me um mal-estar singular e abalando as estruturas da minha tão tênue e instável auto-estima.
Nada justifica a concedida e não-consentida ofensa gratuita de possuir um 'homônimo' cintilante infinitamente mais notável, nada alivia a vergonha de não fazer parte do turbilhão de nomes comuns e de fácil digestão. Só de imaginar-me escrevendo 'Hélio' sobre linhas pontilhadas de toda sorte de documentos, numa grafia obediente e formal, tenho ânsias de correr e zarpar e correr e sumir. Que droga!
Mamãe e papai tiveram mau gosto e provocaram desgosto. Por que não Gabriel, sete letras que exprimem uma perfeição lírico-harmônica incapaz de ser atingida por qualquer outro nome masculino? E por que não Carlos, Fernando, Cristiano, Henrique, Flávio, Caio, Ivan ou Justino? Do franco trono dos nomes preferidos meus, Hélio definitivamente está muito distante.
Eu falei no primeiro parágrafo que a minha revolta havia se dissipado. Mas o texto inteiro é tão-somente repleto de raiva! Perdoem-me, mas nem a escala Richter seria capaz de precisar o nível do abalo que tais recordações e assuntos me provocaram. Acabei saindo dos trilhos e seguindo minhas emoções. Escrever este post ressuscitou a fera que fora assassinada a pauladas, acordou a
Preocupação após anos de hibernação. Amanhã mesmo mudo meu nome para Gabriel.
Ah!