Heliópolis

Uma distração no seu fim de tarde, um remédio para a sua diária falta do que fazer, uma exceção dentre todos os outros blogs - por um lado, muitíssimo pouco criativo, mas por outro, ahá!, cheio de uma humildade contagiante e uma ironia sem igual (au, au).

25.3.07

mercúrio

E como num devaneio impossível de redemoinhos coloridos, ao som dos pássaros e cercado pelo farfalhar incessante das folhas tristonhas, falar de você e de mim e de nós, dos livros de um e filmes do outro. Num sonho bom ouvir o seu sim seguido do meu, um reflexo dourado do sol que se põe na sua mão envolta por tecidos em renda branca, rainha do meu viver.

Espreitar-me à sua volta, esperar pelo seu regresso, saldar-te num silencioso aceno.
Mudo e louco, misantropo é pouco!
Por ti, enfrentar todos os sanatórios e infernos é pouco!

É pouco, é pouco!

23.3.07

ao crepúsculo

Os tempos de imensurável revolta são outros, esvaíram-se junto com outras revoltas igualmente descartáveis e inúteis. Mas a pequena e incômoda insegurança em relação ao meu nome ainda encalça as minhas pegadas e me atormenta a alma, causando-me um mal-estar singular e abalando as estruturas da minha tão tênue e instável auto-estima.

Nada justifica a concedida e não-consentida ofensa gratuita de possuir um 'homônimo' cintilante infinitamente mais notável, nada alivia a vergonha de não fazer parte do turbilhão de nomes comuns e de fácil digestão. Só de imaginar-me escrevendo 'Hélio' sobre linhas pontilhadas de toda sorte de documentos, numa grafia obediente e formal, tenho ânsias de correr e zarpar e correr e sumir. Que droga!

Mamãe e papai tiveram mau gosto e provocaram desgosto. Por que não Gabriel, sete letras que exprimem uma perfeição lírico-harmônica incapaz de ser atingida por qualquer outro nome masculino? E por que não Carlos, Fernando, Cristiano, Henrique, Flávio, Caio, Ivan ou Justino? Do franco trono dos nomes preferidos meus, Hélio definitivamente está muito distante.

Eu falei no primeiro parágrafo que a minha revolta havia se dissipado. Mas o texto inteiro é tão-somente repleto de raiva! Perdoem-me, mas nem a escala Richter seria capaz de precisar o nível do abalo que tais recordações e assuntos me provocaram. Acabei saindo dos trilhos e seguindo minhas emoções. Escrever este post ressuscitou a fera que fora assassinada a pauladas, acordou a Preocupação após anos de hibernação. Amanhã mesmo mudo meu nome para Gabriel.
Ah!

16.3.07

dois pontos

Que engraçado e lamentável, que revoltante e insuportável: justamente as mesmas pessoas que xingam e menosprezam a sorridente flor são as únicas que, por ironia do destino, interagem com ela. Gargalham, mas xingam-na de puta. Tocam-na, mas riem não com, mas dela.

Desprezível. Desprezíveis, digo.

10.3.07

jovem dama

Sob um azulado céu limpo de nuvens, numa manhã agradável de começo de março, deparei-me na rua com um exemplar usual de garotinha loira de olhos verdes - traços europeus, talvez escandinavos, no esplendor dos seus cinco anos de idade, acompanhada de sua avó e irmão. Tinha a pele branca, a tez pálida e um jeito extremamente frágil de agir e olhar. Suas mãozinhas delicadas e graciosas, seus pezinhos envoltos por sandálias minúsculas e seu rostinho em miniatura tomavam conta do meu ser. Se eu tivesse a idade dela, logo tornar-me-ia seu amiguinho e repartiria brinquedos e lanches com a máxima satisfação. Mas na qualidade de um insignificante transeunte pude apenas sorrir, admirado, desejando do fundo da alma que me fosse reservado futuramente a felicidade extrema de ter uma criança que me chamasse de pai.

Ouça, pequenina, o que a minha pessoa gostaria de te falar, mas por circunstâncias óbvias não pôde: tenha uma vida cheia de momentos alegres e bons, marcantes e belos! Pense em mim no instante último da sua existência, garotinha meiga e pálida de olhos verdes, porque de hoje em diante você faz meus dias mais felizes, minhas auroras mais brilhantes, minha vida mais completa! E que um dia saiba que seus corajosos porém amedrontados olhos foram inspiração para um texto que sucumbirá desconhecido antes mesmo que tenha aprendido a ler!

Crianças são adoráveis, todas elas. E eu tenho saudade de ser adorável.

5.3.07

é

“Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Aaaah.”


Extraído da mente de Henry K. durante o trajeto escola-Santana-casa. Todos os direitos reservados.