Heliópolis

Uma distração no seu fim de tarde, um remédio para a sua diária falta do que fazer, uma exceção dentre todos os outros blogs - por um lado, muitíssimo pouco criativo, mas por outro, ahá!, cheio de uma humildade contagiante e uma ironia sem igual (au, au).

30.12.06

Avenida Niévski, primeira à esquerda; falar com Fierfítchkin

Eu tenho que parar de escrever posts pessoais e particulares e reservados, restritos à compreensão de duas ou três pessoas, e quiçá de ninguém.

Droga.
Миха́йлович!

22.12.06

Queda

Quanto mais escrevo nesse blog mais me convenço de que, inegavelmente, estou a uma distância colossal de nomes como Luis Fernando Veríssimo, Walcyr Carrasco, Ivan Angelo (deus), Lya Luft, João Ubaldo Ribeiro e quiçá Diogo Mainardi. Falta-me criatividade e desenvoltura, isso é bem aparente. E, ademais, o meu problema-mor de não conseguir criar orações decentes nem de saber escolher as palavras certas é irremediável e nunca será sanado.

Enfim, abdico neste exato momento dos meus devaneios de ser um consagrado escritor e cronista e das minhas quimeras de viver das letras e tornar-me imortal à mercê de minhas publicações. Isso me provoca uma dor violenta no coração, e tenho agora uma vontade pulsante de rasgar o peito e partir o crânio*. Mas é preciso dar razão à verdade evidente: há milhares de pessoas de talento mais refinado que o meu. Meros exemplos são o Cleiton e o Rezende, além da Carol, do Tiozão e da Vivian. Deixo nas mãos deles, tristemente, a possibilidade de um futuro brilhante e promissor.

E quem dera eu soubesse de antemão que apenas desperdicei tempo ao rascunhar há alguns meses atrás as primeiras linhas do meu trágico romance de amor. Já tinha a história toda formulada, mas... foi tudo em vão. Paciência. A dúvida que fica é se eu guardo-a para o futuro ou jogo-a no mar do esquecimento (leia-se lixo).
E pensar que tudo isso (incluindo o blog) começou graças à minha vaidade, à minha certeza de poder escrever tão bem quanto Dostoiévski....



Bah, por fim: viva o Paulo Coelho, o pior escritor que eu já li e, em contrapartida, um dos mais prestigiados em todo o mundo.
Brindes ao mago! êê! Ele é o meu herói.


*da obra Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe.

21.12.06

Preito amoroso pt.2

Procurei por entre os galhos nas copas d'árvores, busquei nos vales obscuros e nos abismos d'água, por entre os corais e embarcações naufragadas. Vistoriei embaixo de pedras que viram nascer o mundo, vasculhei o passado em livros e periódicos e perguntei a decrépitos anciãos, portadores da sabedoria acumulada de uma vida inteira. Mas não achei. Não consegui achar uma representação, uma demonstração sequer, nenhum objeto ou idéia ou palavra ou momento ou visão que substituisse e representasse melhor a idéia que três palavras rabiscadas no verso de uma lição de matemática transmitiam.
"Perene, terna, esplêndida."


(...)
E um violino solitário tocava no fundo da praça sua valsa melancólica, sob uma torrente de ventos que levavam o triste som até os confins da cidade, acordando e comovendo centenas de pessoas recém dispersas de seus leitos em trevas.
E pouco a pouco, noite após noite, valsa após valsa, um burburinho elevou-se e chegou aos ouvidos daquele que vos escreve:
"Uma rosa, uma rosa cheia de espinhos.
Uma flor caribenha rara envolta por milhares de beija-flores."


Basta.
Ponto.

Em memória à um Ariza, mais especificamente à Florentino: "uma deusa coroada".

19.12.06

T de ...tchau!

(...)
- Então quer dizer que a gente nunca mais vai se ver? - indaga ele, calmamente, colocando suas mãos em meus ombros.
- É, acho que sim. Graças à Divina Providência eu nunca mais vou ter que olhar pra sua cara - respondo rispidamente, tratando de me desvencilhar de tão indignas patas e de tão falsas estimas.
- Mas...
- Mas o quê? - protesto irritado.
- Por que tanta aspereza? - rebate ele, dissimulando não saber o motivo de minha gana. Uma lágrima cai dos seus olhos. - O que eu te fiz?
- Saia da minha frente, por favor. Saia agora!
- Mas... mas...

Ele se vira, e começa a dirigir-se para a portinhola de saída, cabisbaixo. De longe diviso um chinelo, e acredito ser o direito. Aviso-o:

- Ei, pegue o seu chinelo. Esqueceu-o aqui no chão.
- Ah, obrigado. - diz ele, quase esboçando um sorriso. Pega o chinelo e olha-me nos olhos, mas eu não retribuo o olhar. Aponto-lhe a porta da forma mais despótica possível.
- Obrigado nada. Agora caia o fora daqui! Não vê que é uma presença não desejada?
- ...
- Espero nunca mais te ver na vida. - desabafo, prestes a chorar.
- Tchau, então. Até nunca mais. - sua voz rouca, grave e um tanto melosa causa-me enjôos.
- ...... - mordo a língua e olho para o céu. O meu silêncio sintetiza um período de mais de dois anos de indignação e resignação.


E ele se vai, cambaleando silenciosamente por entre as árvores e becos. Eu fecho os olhos e, numa última torrente de raiva e desespero, sussurro:
- Desgraçado!

16.12.06

Rosa

ele teceu uma torre, para alcançar a Lua. Saiu de seu mundo para alcançá-la, e quando estava bem perto, a Lua, com um olhar, fez desmoronar o pobre edifício e ele caiu de cara no chão.

Metade dele sente raiva, pela dor da queda, pela perna quebrada, por ter tido o ego narcísico ferido. Quer causar remorso, fazer sofrer também.
Mas a outra metade compreende, e tenta conter as lamúrias para não causar peso na consciência.

ele não quer esquecer, sabe que seria um enorme desperdício de vivência. Quer agora sublimar. Já tentou pela arte e pelo cansaço físico, e agora tenta a escrita.

"Ela chega em casa, vem de uma festa, tem o vestido novo. O cão, ao sentir a vinda, balançando o rabo, corre pra subir na dona com suas patas sujas de lama. Ela, querendo preservar a nova roupagem, manda o cachorro embora, enxota-o. O cão, confuso, desenganado, volta andando pra sua casinha, com o rabo entre as pernas, cabisbaixo.
No dia em que se segue, ela, de chinelos e bermuda, vai atrás do cão, desculpar-se pela indelicadeza. O cão aparece, balançando o rabinho, sem mágoas do dia anterior"

ele pretende ser como o cão.

Atenção: esse texto contém incontáveis simbolismos e metáforas que apenas meia dezena de pessoas irão compreender, portanto não tente achar significados em partes não compreendidas.

3.12.06

E Ela foi embora sem dar tchau

Entrava na sua apertada alcova, sob um fino e elegante chuvisco outonal quando, de forma paulatina e sedutora, o encapuzado atroz sem rosto fechava as escarlates cortinas do derradeiro dia, e o gorjear dos pássaros se transfigurava em estrelas mudas, e todas as cores do mundo viravam uma só.

Estava cansado - encarcerado em uma rotina extenuante e previsível, angustiado por uma insensatez laranja inexplicável. Deitou-se na cama ante os remotos e incessantes uivos dos lobos da estepe, e tão logo adormeceu que sequer trocou os trajes plebeus ou tirou as botinas sujas, tendo ainda no rosto o disfarce dos sorrisos dissimulados que usara no decorrente dia, enganando as pessoas e a si mesmo.

E lá fora, na penumbra hermética e nas brumas gélidas, no decadente trono sentados estavam, envoltos por borboletas amarelas e tendo às suas patas heliotrópios pisados e apodrecidos. Os cabelos lhe caíam no rosto, tinham gostos requintados e coração austero. Olhavam com suas repugnantes órbitas para o cândido adormecido que dormia, que dormia e que dormia entre cobertas de angústia e que se remexia, revirava e gemia na vã tentativa de esquecer tudo. Olhavam às gargalhadas e escarravam lucidez. Eles, os que olham, não têm nome e nunca terão, pois para sempre e desde o princípio estavam marcados pelo estigma dos seres indignos da vida.

Fez-se dia e, servindo de preâmbulo para o irremediável porvir, choveu sangue de um céu dilacerado. O desafortunado ser acordou e, ao divisar seu horizonte inteiramente tingido de vermelho, caiu em prantos abundantes, vendo que finalmente chegara o tão aguardado dia.
Vagarosamente pegou a carabina do fundo do armário e se dirigiu para fora daquilo que por toda a vida chamou de lar, obstinado a pôr fim ao seu cruel sofrimento. A relva estava vermelha, o céu estava negro, e ele cambaleava diante das lembranças de tantos dias e noites. O vento gélido do norte ruborizava a sua tez. Direcionou o revólver para o seu peito e, numa onda de profundo ressentimento e mágoas, apertou o gatilho sem exitação. A bala atravessou seu coração num grito surdo, rasgando as entranhas de um ser arrependido. Ele se espatifou no chão, e agora não passava de uma carcaça sem vida, o remanescente de uma existência com mais altos do que baixos. Recomeçava o chuvisqueiro rubro quando, pouco a pouco, iam baixando os urubus. E Ela, sorridente e terna, camuflada por entre os arbustos encharcados, foi embora de mãos dadas com os indignos sem-nome, sem dar tchau.

E imediatamente após a fatalidade o esquecimento tratou de tecer a sua própria mortalha, e a importância cuidou de organizar o seu próprio funeral, de modo que nos dias de hoje não é possível saber a identidade do suicida e nem o motivo de tão horrendo ato.

Atenção: esse texto contém incontáveis simbolismos e metáforas que apenas meia dezena de pessoas irão compreender, portanto não tente achar significados em partes não compreendidas.